Por que criou pânico no Partido Democrata esta veterana da guerra do Iraque

tulsi gabbard

INTERNACIONAL | Mesmo no Congresso dos EUA, controlado por dois partidos gémeos, surge uma voz contra as sistemáticas guerras de agressão levadas a cabo pelo seu país. E o caso tem ainda mais interesse sabendo-se que a congressista que o faz manifestou a intenção de se candidatar às eleições presidenciais de 2020.

A recém-anunciada candidatura presidencial para 2020 da congressista democrata havaiana Tulsi Gabbard desencadeou a fúria da direita e da esquerda, mas ainda mais dentro de seu próprio partido, e em particular dos recantos há muito focados na mudança de regime na Síria e que geralmente pressionam por uma política externa de “botas no terreno” desde a Ucrânia à Síria e o Afeganistão. Alguns comentadores chegaram já ao ponto de dizer “fiquem de olho nas finanças dela”, sugerindo financiamento de campanha estrangeiro ilegal oriundo de Damasco ou Moscovo.

Tanto os neoconservadores como os liberais intervencionistas uniram-se para criticar esta progressista antiguerra como “a porta-voz de Assad em Washington” e uma “apologista de Assad” e é claro que há o costumeiro insulto de “fantoche de Putin” – este último porque, como diz o jornalista Michael Tracey, ela, para os Democratas, “não tem sido suficientemente empenhada no Russiagate”.

A acusação anterior foi ouvida regularmente após sua viagem no início de 2017 a Damasco para se encontrar em reunião privada com o presidente sírio Bashar al-Assad num gesto diplomático no sentido de investigar pessoalmente as acções do Ocidente visando a mudança de regime e as suas consequências para o povo sírio. A iniciativa foi criticada por Congressistas Democratas, que levantaram questões acerca de possível violação da Acta Logan.

Suficientemente engraçada como congressista de esquerda de raça mista (de ascendência samoana americana), Hindu, e oficial de reserva do Exército dos EUA, pensar-se-ia que ela seria promovida pela esquerda, dada a sua “impecável boa-fé no que diz respeito às políticas de género”. Mas que pecado imperdoável cometeu? Há muito, ela assumiu como objectivo central da sua carreira política “acabar com as guerras intervencionistas de mudança de regime por parte dos EUA, que custaram à nossa nação milhões de milhões de dólares e milhares de vidas“, objectivo para o qual ela apresentou ao Congresso propostas de resolução relacionadas com a Síria.

Acusou também as acções secretas de mudança regime por parte de Washington de alimentarem a ascensão do Estado Islâmico e de agirem como “o grande irmão protector da Al-Qaeda e outros jihadistas” – acusação que repetiu no Congresso dois dias apenas da última celebração nacional do 9/11.

Considerando que a própria congressista Gabbard é uma veterana da guerra no Iraque e actual oficial de reserva do Exército que serviu após o 11 de Setembro, verifica-se ser ainda mais poderoso e raro que um membro do Congresso faça comentários tão fortes expondo a hipocrisia e as contradições da política dos EUA. .

Ela identificou da seguinte forma o principal impulso para a sua candidatura em 2020:

Há uma questão principal que é central para todo o resto, e essa é a questão da guerra e da paz.

Sem dúvida que bastaria isso para fazer os falcões e teóricos de poltrona espumar pela boca e insultar Gabbard, acusando-a de “colocar em risco a nossa segurança nacional” caso conseguisse sequer aproximar-se de obter a nomeação democrata.

A máquina de difamação neocon entrou já em alta rotação – algo que é consistente com ambos os lados do corredor.

Tendo experimentado pessoalmente as devastações de uma guerra de mudança de regime e suas consequências duradouras tanto para os iraquianos como para o povo americano, ela emergiu como uma espécie de “Ron Paul da esquerda” (estritamente falando no que diz respeito a política externa).

E como Paul antes, ela poderia emergir em 2020 como uma voz rara, dando destaque à adição de Washington a mudanças de regime e “guerras intermináveis” no exterior, e à alimentação da mentalidade de “policia global” por parte do complexo militar-industrial dos Estados Unidos e das suas cegamente obedientes claques na generalidade dos media. Isto fará, no mínimo, com que o debate de política externa no decurso da próxima eleição – geralmente uma câmara de eco do ponto de vista único do situacionismo – seja mais interessante.

Entretanto, o que revela o virulento ódio à postura antiguerra de Gabbard? Tal como Nassim Taleb resumiu: A “esquerda” é tão propriedade dos fabricantes de armamento como a “direita”.

Este artigo encontra-se no ODiario.info

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