Curdistão: Uma guerrilheira em Varto

barin-kobane-tw1INTERNACIONAL | [Tiago Trasancos]  / Barîn Kobanî sorri na fotografia. Um sorriso franco e aberto, como se o seu mundo todo e ela própria não vivessem no meio de uma guerra cruel, que a obrigou a pegar nas armas. Não fosse a farda verde militar e poderíamos pensar que está de celebração num dia de festa. Mas a última imagem que temos dela é bem diferente. O seu corpo foi achado em Bulbul, 30 quilómetros a norte de Efrîn, despido e mutilado. Num ato de crueldade sem limites, tinham-lhe cortado os seios e os seus órgãos genitais e deixado o cadáver no meio da rua. Tinha 23 anos.

Barîn Kobanî chamaba-se na realidade Amina Omar. O nome de guerra com que era conhecida como miliciana ganhou-no na defesa de Kobanî, em 2014, onde as peshmergas resistiram heroicamente o assédio do Estado Islâmico durante meses até acabarem por libertar a cidade em janeiro de 2015. A resistência de Kobanî, em que as milicianas da YPJ tiveram um papel essencial, representou uma grande vitória do povo curdo e uma pesada derrota não apenas para o ISIS, num momento que em que contava ainda com grande fortaleza, senão sobretudo para os seus apoiantes turcos.

Turquia, precisamente, vem de lançar agora uma ofensiva aberta contra os curdos de Rojava, estendendo a guerra que mantém desde há décadas com o PKK. Turquia não quer um bastião curdo livre em Efrîn, perto da sua fronteira. E para isso não se para em barras nem menos no respeito à soberania -agora mais teórica do que real, é verdade, mas ainda efetiva do ponto de vista do direito internacional- de um estado vizinho. Foram as forças terroristas ao serviço dos interesses turcos que m ataram Barîn Kobanî e pretenderam humilhar as milicianas resistentes no corpo de mulher da peshmerga caída.

O de Barîn Kobanî é o último caso que conhecemos mas infelizmente não foi o primeiro. Em agosto de 2015 apareceu nas ruas de Varto o cadáver despido da comandante do PKK Kevser Elturk, conhecida como peshmerga com o nome de Ekin Wan. Fontes curdas indicaram na altura que o corpo da guerrilheira tinha sido despojado da sua farda de miliciana, arrastada polo pescoço com uma corda pola cidade e exibida na praça pública. Posteriormente as imagens da ignomínia foram difundidas -previsivelmente polos seus próprios executores- nas redes sociais. O objetivo de humilhação e intimidação das resistentes ficava claro.

Eu conhecia o nome de Varto… Mas, talvez convenha esclarecer que Varto, na verdade, não se chama Varto. O seu nome real é Gimgim, e é uma pequena vila do Curdistão Norte. Mas aqui a mudança de denominação não foi voluntária; tem a ver com a lógica do colonizador: tirar o nome curdo para tentar tirar a identidade curda. É turco todo aquilo que tem nome turco. A capacidade infinita das palavras para criar mundos, para moldar perceções e, portanto, também para construir realidades. E a sua utilização ao serviço do poder e da dominação… Na Galiza sabemos perfeitamente disso.

Eu conhecia, digo, o nome de Varto -assim apareceu nas informações de imprensa- porque dessa povoação era uma das pessoas -apenas um rapaz- assassinadas alguns meses atrás pola repressão turca dos protestos contra o assédio de Kobanî e contra o fato de contar com a colaboração -por ação ou omissão- da Turquia que, entre outras cousas, impediu a população curda de atravessar a fronteira para acudir em auxílio da cidade assediada.

Desta vez, longe como fica o Curdistão, a tragédia afetou-nos de perto, pois o moço assassinado era primo do nosso Irfan Guler, curdo-galego que, como bom revolucionário e internacionalista, mal chegou à Galiza tornou-se militante do BNG. Irfan foi motor de diversas iniciativas e ações de solidariedade entre a Galiza e o Curdistão e, uma vez de volta, também fonte de informação -através das suas amizades galegas- dos terríveis acontecimentos que vive o povo curdo na incessante luta pola liberdade.

Assim, Varto -pois Gimgim não aparece nos jornais-, uma povoação de apenas 10.000 habitantes, virou conhecida para quem segue o conflito curdo. Naquela altura de agosto de 2015, em que alguns -escassos- meios recolheram a informação da tortura e morte de Ekin Wan, ficámos chocados pola desumanidade de um ato como esse. Mas algumas informações jornalísticas acrescentavam que não era a primeira vez em que tinham sido difundidas imagens de soldados turcos ultrajando os corpos despidos de guerrilheiras curdas, exibindo-se com elas como se fossem troféus de caça. Mais uma vez, a lógica da humilhação que acha o campo predileto nos corpos da mulheres.

Infelizmente, nada novo. A cultura do estupro levada ao extremo da crueldade e empregada com fins políticos, embora aqui praticada com hedionda monstruosidade. As mulheres como botim de guerra, como escravas sexuais, como presas de caça e vítimas propícias em tempos em que a brutalidade masculina anda à solta amparada nos canos das armas ou na permissividade -quando não cumplicidade- dos poderes que há por trás.

Mas agora, na sexualização da humilhação, existe, com certeza, uma outra componente. Pensemos na mulheres galegas comprometidas -nacionalistas, esquerdistas, revolucionárias- nos anos da repressão fascista, rapadas e ultrajadas -castigo reservado às mulheres- para que servisse de escárnio público, mas também como forma de intimidação social. É a covarde reação machista face às mulheres fortes, às mulheres que não se dobram, às que lutam. Imaginemos o furor falocrata dos terroristas do DAESH derrotados em Kobanî ou dos soldados e policiais turcos que se enfrentam a unidades peshmerga comandadas por uma mulher. Aqui não é suficiente com matar. Aqui emerge o comportamento mais infame, o abuso sexual como arma de guerra, como forma de vexação e de atemorizamento.

As mulheres curdas têm-se tornado em símbolo internacional da luta contra o Estado Islâmico. Um mal exemplo, com certeza. Organizações de mulheres curdas assinalam que o uso da violência sexual é prática comum como forma de intimidação das peshmergas e das unidades militares curdas. A mensagem é clara: “Eis as vossas heroínas, afinal elas não eram assim tão duras, podem ser derrotadas. É melhor não resistirem, porque este é o destino que vos aguarda”. Mesmo têm documentado, já desde os anos 80, casos de violência institucionalizada, como a acontecida na prisão de Diyarbakir por parte de funcionários turcos, com torturas, violações e assédio a prisioneiras curdas.

Gulistán Elturk, irmã da comandante Ekin Wan, denunciou que quando foram recuperar o seu corpo ainda continuavam no local dezenas de soldados e policiais turcos fazendo mofa e que chegaram a seguir o veículo em que a família transportava o cadáver. A infâmia levada até ao extremo.

Acho, em todo o caso, que a leitura das mulheres curdas é bem outra daquela que pretendem os terroristas. Lutar é o único caminho, a única forma de derrotar definitivamente a barbárie, de ser mulheres livres num mundo diferente e num Curdistão liberado. Denunciar a ignomínia, por muito crua e brutal que ela seja, é sempre necessário.

Ekin WanComo Barîn Kobanî, também Ekin Wan sorri numa imagem tomada em alguma montanha nevada do Curdistão Norte. Como o das outras combatentes curdas, os seus olhos não nos transladam o horror que vivem a diário, mas a alegria da luta e a certeza da vitória. Assim é como as queremos lembrar. Com nomes como Gimgim -já nunca mais Varto-, Kobanî ou Rojava na nossa memória. Sirva este pequeno texto de tributo de solidariedade para as mulheres que nesta hora resistem em Efrîn frente à barbárie turca e do fascismo islâmico. Elas são o sorriso da liberdade.

À memória de Samuel Prada León, internacionalista galego caído na defesa de Efrîn

Este artigo encontra-se no blog tiagotrasancos.wordpress.com

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